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Mística, profecia e religiosidade marcam a tarde dos/as agricultores/as experimentadores/as

14/02/2019

Por Elka Macedo - ASACom

Participantes do V ENAE visitam horto do Padre Cícero | Foto: Miguel Cela

No alto do horto, aos pés da estátua de Padre Cícero, fé, cultura e saber popular se misturavam entre os povos do Semiárido que lá estavam para celebrar a convivência com o Semiárido e acolher as previsões dos/as chamados/as profetas da chuva. O que se prevê sobre a vinda da chuva é fruto da observação das agricultoras e dos agricultores que percebem os sinais que a mata revela. Seja olhando para o céu e observando as nuvens e as estrelas, seja sentindo a terra e prestando atenção no cantar dos pássaros, no desabrochar de uma flor, na semente que cai ou na árvore que transpira. É pela observação cuidadosa que o profeta escuta a mãe natureza.

Para compartilhar o saber estavam Seu Nilson e Seu Chico, guardadores de experiência de chuva do Ceará e Dona Josefa de Jesus, guardadora de experiência de chuva do semiárido sergipano. O momento foi mediado pelo compositor e cantor cearense, Zé Vicente que utilizando-se da mística da música, das cantorias e da poesia conduziu as falas. O evento fas parte da programação do V Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores que acontece até esta sexta-feira (15) em Juazeiro do Norte (CE).

Quando foi convidado para falar, Seu Chico logo exclamou: “profeta não, eu sou guardador das experiências que eu herdei dos meus avós e dos meus pais!”. Ele contou que foi ainda menino que aprendeu com o avô e o pai a observar as árvores. “Eu tenho algumas experiências na questão das árvores. A umburana de espinho no período de novembro, dezembro e janeiro, quando está próximo a chover, ela chora. E ela solta um líquido da cor da madeira que dá pra gente perceber que ali ela tá demonstrando que vai ter um bom inverno porque a terra está oferecendo condições para que a chuva chegue”, disse.

Seu Nilson também aprendeu cedo que é no meio ambiente que encontra a resposta para a invernada. É pela floração e pelas sementes que árvores da caatinga como o cumaru também conhecida como umburana-de-cheiro, aroeira e angico produzem que ele sabe se o inverno vai ser bom ou não. Ele explica que 2019 não vai ser um ano promissor para chuvas. “Nesse ano, de 10 árvores de cumaru, uma ou duas criou sementes. Esse é mais um ano difícil, mas não vai ser pra todo mundo porque vai ser um inverno separado, chove aqui, ali não. Muita trovoada, relâmpago, mas a água é pouca. Vamos pedir a Deus que as represas peguem água”.

A ancestralidade é forte e influencia todos/as os/as profetas. Dona Josefa lembra das experiências que seu pai fazia e de como ele sempre teve o céu como fonte de conhecimento. “Eu não sou profeta, mas guardo na memória tudo o que meu pai me ensinava. Meu pai tinha o costume de não dormir na virada do ano que era pra ver a barra no céu. Ele dizia que se tivesse uma barra completa no céu o inverno ia ser bom, se tivesse só metade, ia chover só em algumas regiões. E pela experiência que ele falava o ano vai ser de camboa, não vai ser a chuva geral esperada, vai ser uma chuva passageira”, prevê a agricultora.

Seu Chico também tem uma previsão semelhante e aconselha as/os agricultoras/es a tomar cuidado na hora do plantio. “Da para gente perceber que a natureza não está preparada para distribuir para o povo do semiárido um inverno que a gente diga assim: ‘tamos preparados pra enfrentar a seca de junho a dezembro’. Por isso, vamos plantar em terras baixas porque em terras altas está sujeito a gente não tirar legume”. Ele chama atenção também para o cuidado com a natureza.

“Talvez muita experiência hoje teja fugindo das mãos dos agricultores porque o próprio homem fez o desmatamento e hoje, aquelas árvores e aqueles pássaros que as pessoas olhavam pra suas experiências fugiram daquela região, e aquelas árvores foram cortadas, foram queimadas e não existem mais”, lembra Seu Chico. Embora nas previsões não se tenham expectativas de bom inverno, é bom lembrar que as experiências são territoriais e que em cada canto do Semiárido a natureza apresenta sinais diferentes.

 

 


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