Oficina debate segurança alimentar no Semiárido e resgata saberes sobre alimentação saudável.
No dia 26 de junho de 2025, no auditório da ONG CAATINGA, localizado em Ouricuri/PE, foi palco da Oficina de Segurança Alimentar promovida pela Rede ATER Nordeste, por meio projeto Cultivando Futuro com apoio da PORTICUS. A atividade integrou uma série de ações realizadas em diversos territórios do Nordeste, com o objetivo de realizar um diagnóstico participativo sobre os hábitos alimentares das famílias rurais ao longo das últimas décadas, em especial da década de 1990 aos anos atuais.
A oficina reuniu agricultores e agricultoras familiares e lideranças comunitárias, promovendo um espaço de escuta, troca de saberes e análise crítica sobre as mudanças alimentares no município de Ouricuri. Uma das ferramentas centrais utilizadas foi a “linha do tempo”, que guiou os grupos na identificação dos alimentos consumidos, além de espaços de comercialização no passado e na atualidade, durante os períodos de inverno e seca. A metodologia também permitiu debater o papel das mulheres e das juventudes na produção e preparação dos alimentos, bem como o acesso ao mercado e os impactos do atual modelo de consumo.


Entre os principais destaques dos debates por grupo de trabalho:
–Alimentação:
Foi evidenciada a ampla diversidade e qualidade dos alimentos produzidos e consumidos nos anos 1990, especialmente no período chuvoso. Alimentos com o uso de ingredientes naturais e sem agrotóxicos. No período de seca, as famílias recorriam ao que havia sido estocado, como fubá de milho, carne conservada, rapadura e goma seca. A alimentação escolar e doméstica mantinha uma base mais natural, com pouca industrialização.
Atualmente, embora alguns alimentos tradicionais ainda estejam presentes, houve um crescimento significativo do consumo de produtos ultraprocessados. O protagonismo das mulheres continua evidente, agora com maior envolvimento em espaços de comercialização, movimentos sociais e produção agroecológica.
–Mercado:
A análise demonstrou que nos anos 1990 as trocas entre vizinhos, o cultivo no próprio quintal e o comércio local (como bodegas e feiras comunitárias) garantiam a segurança alimentar com base em laços de confiança e saberes compartilhados. As mulheres exerciam papel central no plantio e nas decisões sobre os alimentos da casa.
Na atualidade, apesar de iniciativas como feiras agroecológicas, espaços de comercialização como o COPAGRO e programas como o PNAE e PAA, a comercialização está mais centralizada em atravessadores e mercados atacadistas. O acesso facilitado a alimentos ultraprocessados desafia a autonomia alimentar das famílias e enfraquece a prática da troca de alimentos.
– Hábitos e Resíduos:
Foi discutido sobre os hábitos alimentares e o impacto da mudança de comportamento no consumo e no descarte de resíduos. Enquanto nos anos 1990 predominavam alimentos frescos, preparados em casa, com pouco lixo gerado (sobretudo resíduos orgânicos), atualmente há um crescimento alarmante no uso de alimentos industrializados, embalagens plásticas e resíduos não recicláveis.
Foi destacado o papel das mulheres no passado — além da jornada doméstica e rural, detinham conhecimento sobre plantas medicinais e culinária ancestral. Hoje, elas estão mais empoderadas, inseridas em espaços de decisão e mobilização coletiva. Também foi mencionado o trabalho de resgate de saberes tradicionais por meio de iniciativas como a culinária de base em plantas nativas da Caatinga, valorizando alimentos como cactáceas e frutas típicas do bioma.



Foi feita uma reflexão sobre os desafios contemporâneos diante das facilidades oferecidas pelo mercado, que nem sempre atendem às necessidades nutricionais das famílias. Ressaltando que alimentos “que enchem o bucho” não necessariamente nutrem e que o abandono de práticas ancestrais está ligado à perda de autonomia e segurança alimentar e ao adoecimento da população.
Reforça a necessidade de retomar a produção agroecológica, fortalecer os circuitos curtos de comercialização e criar alternativas sustentáveis que gerem renda sem comprometer a saúde e o meio ambiente. O uso da linha do tempo como instrumento pedagógico se mostrou eficaz para despertar consciência crítica e planejar estratégias de incidência política.



A oficina foi finalizada com uma mensagem de esperança: apesar dos desafios do atual cenário, plantar a semente do conhecimento e da agroecologia continua sendo um caminho possível e urgente para a transformação social no Semiárido.
